Como nasceu

UM DIA DE FELICIDADE

Todos os anos quando vou ao Brasil, e calha de ser na época do Natal, deparo-me sempre com as atividades do comercio, pessoas que vão e vem comprando os presentes para as crianças. Enquanto não havia minhas netas, minhas compras limitavam-se aos supermercados para organizar a ceia, os presentes de gente grande levava daqui da Europa.

Nos supermercados, deparava-me às vezes, com algumas crianças que discretamente circulavam tentando aproximar-se dos clientes para pedir-lhes algo que ajudasse em suas casas, digo discretamente porque os vigilantes atentos aos pedintes perseguem toda criança com cara de mendiga que aborda os clientes.

Uma dessas crianças aproximou-se de mim, quando estava na lanchonete, sentou-se e ficou olhando-me em silêncio. Compreendi seu silêncio e perguntei-lhe se queria algo, ele respondeu de imediato que sim. Na minha desconfiança quanto ao uso do dinheiro, que muitas crianças utilizam para comprar droga, disse-lhe que me dissesse o que queria e eu compraria, elas ( eram 3 crianças) não queriam comer ali, queriam alimentos para levar pra casa. Perguntei-lhe porque não estavam na escola, pois ainda não era férias, o que a mãe fazia, onde moravam, o ano que estavam, etc. Eles contaram que eram cinco pequenos e um irmão mais velho adolescente que estava procurando trabalho, o pai sumira e a mãe trabalhava fazendo faxina, tinham mais um irmão de 3 anos e outro bebe. E eles pediam no supermercado comida pra ajudar em casa, mas tinham que fazer atenção com o vigias, que os escorraçavam e até batiam neles. Eles moravam num ruela perto do supermercado em Florianópolis, iam pra escola pela manhã uns, e à tarde outros, assim podiam cuidar dos pequenos na ausência da mãe.

Aquilo me cortou o coração, então comecei ali a dar um pouco sempre que cruzava com uma criança de rua. Mas fiquei no cruzar, se me deparava com uma criança pedindo oferecia-lhe o que me pedia, não fui mais além.

Quando minha neta nasceu, fui então à uma loja de brinquedos para comprar presentes para ela. Era natal. E lá deparei-me dessa vez com mães que vasculhavam discretamente a loja fazendo de contas que estavam procurando algo para comprar, elas tinham crianças ao lado e orientavam os filhos para não tocarem em nada e para não quebrarem a mercadoria pois custava muito caro. As crianças olhavam os brinquedos devorando-os de desejo. Fiquei observando discretamente e vi algumas as mães aproximarem-se de pessoas bem vestida e perguntavam-lhes se podiam comprar um determinado brinquedo que custava 5 reais, imagine 5 reais! Ela não tinha o dinheiro e a criança estava pedindo à mãe. A pessoa fez que não ouviu, virou as costas e continuou suas compras. Comprei o que a criança queria e lhe dei. Perguntei se tinha mais crianças em casa ela me disse as idades comprei um presente para cada um, ela levou os presentes, super agradecida e chorando.

Achei muita coragem dessa mãe que se dispôs a rondar a loja para conseguir comprar uns pequenos presentes para seus filhos na época do Natal. É lógico que me vi cercada de mães pedindo isso e aquilo. E por incrível que pareça nenhuma tentou aproveitar-se pedindo coisas exorbitantes ou para crianças inventadas, diziam-me o que o filho pensara e procuravam algo com preço baratinho de cinco reais. Umas pediram shorts, camisetas, brinquedos mas sempre para os filhos, nada para elas, então disse a uma que olhava uma legging que podia escolher, ela ficou olhando-me muda e só perguntou,

- A senhora vai comprar pra mim?

-É, é um presente de natal pra você!

-Obrigada senhora mas eu prefiro uma bola pro meu filho, foi o que ele me pediu de presente, eu troco a legging pela bola, pode ser?

-Pode, escolha a bola! Ela escolheu a bola entregou-me para eu pagar, então virei pra ela e disse-lhe, agora escolha uma legging!

Ela ficou paralisada e perguntou se eu ia desistir da bola, disse-lhe que não, que podia também pegar a legging. A senhora caiu no choro ali na minha frente, entre soluços disse-me que nunca tinha recebido um presente de natal, aquele era o primeiro. Perguntou-me se poderia me abraçar e disse à criança para me abraçar e agradecer. Foi emocionante o que senti. E prometi-me continuar a fazer essas pequenas doações esporádicas.

É uma realidade muito triste, chegar o natal e não poder oferecer um presentinho ao filho, eu sei e compreendo pois lembro do meu pai fazendo a maior ginástica par nos oferecer um brinquedinho que ele comprava com sacrifício para cada filho.

Quando eu tinha 5 ou seis anos ainda tive umas bonecas grandes que ele escondia embaixo da cama, depois foram nascendo os filhos e a boneca foi diminuindo de tamanho, até desaparecer. Enquanto eu babava nos bebês gigantes e da boneca amiguinha que minha vizinha recebia de presente. É, passou o tempo e me ponho na pele dessas crianças que nunca recebem nada e guardam o sonho do Natal esperando que aconteça um milagre que venha alimentar suas esperanças na vida e na humanidade.

Então passei a levar, nas minhas viagens pelo mundo, um pouco de objeto pessoal e muita coisa para presentear, chocolate, sabonete, escova de dentes, lápis, canetas, maquiagem, esmalte, perfume até cotonete já levei e não sobrou um. Às vezes pensamos que as pessoas não querem ou vão se ofender mas é um engano! É uma pena que o limite de bagagem não nos permita transportar muita coisa.

Vivemos aqui nesse país onde o desperdício é normal e ao ver brinquedos e roupas seminovos que seriam úteis a tantas pessoas carentes, fico triste,.

Uma projeto começa devagar vai criando raízes até virar uma realização. O ano passado, então, pedi ao meu sobrinho e a minha mãe para executarem UM DIA DE FELICIDADE na aldeia de Camurupim em Marcação na Paraíba e numa favela de Fortaleza. Mandei uma verba para eles comprarem brinquedos e alimentos que foram distribuídos por meu sobrinho e minha mãe. Um pouquinho de sorriso e um pouquinho de guloseima fizeram a alegria. Foram poucas as crianças favorecidas. Mas esse ano decidi criar a campanha oficialmente onde pessoas que pensam em dar algo a uma criança mas não tem tempo ou não sabem como, podem cooperar com essa campanha que, pretendo, possa atingir um número significativo de crianças, embora, eu saiba que sempre alguns ficam de fora. Espero que muitas pessoas cooperem, o valor não importa. O que importa é que atrás de cada valor doado, começa a despontar um sorriso. Colocarei fotos e filmes assim como uma prestação de contas na página do evento para que as pessoas possam acompanhar o evento e assegurar-se que as crianças foram presenteadas.

Valquiria Imperiano

CULTIVE

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